A justiça falha por tardar

 

*Por Luiz Cláudio do Nascimento

A vida realmente nos prega algumas surpresas, que podem ser naturalmente boas ou não. Vivi há poucas semanas um momento desses, que na verdade era um misto de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Logo eu, que estava próximo de um procedimento cirúrgico, tive que me conter e segurar ao máximo minhas emoções, para poder então dizer algumas palavras que vinham de dentro do meu coração, mas que soavam como uma despedida. Ao final desta ligação, confesso que chorei.

Ao assistir um vídeo que o radialista Cristiano Silva, havia compartilhado em seu perfil no Instagram, senti um desejo grande de poder compartilhar algumas palavras de apoio ao Mané de Oliveira. No vídeo ele comentava a fase difícil que estava vivendo, mas demonstrando a força de sempre, se mantinha firme em suas convicções e certezas. Um vídeo curto, mas que teve grande repercussão para as pessoas ligadas ao esporte goiano.

Assistir a aquele depoimento dele tinha me feito viajar no tempo até o dia 5 de julho de 2012. Naquele dia eu estava descendo as escadas quando vi o gigante Mané de Oliveira, que acabara de ser informado do estúpido assassinato de seu filho Valério. Estava junto, acho que o também amigo, José Carlos Lopes e o Joãozão, que comentavam na bancada do Programa do Mané. Fiquei tremendo pois nunca tinha visto a reação de um pai ao saber a morte de um filho. Aquilo me marcou muito! Aquele gigante desmoronou. Não sabia que se corria para dar meus sentimentos, se pedia desculpas pelas vezes que debatemos acaloradamente alguns assuntos, não sabia o que fazer. Fiquei em choque!

Foram muitos colegas que compartilharam comigo o vídeo. Em um primeiro momento sei que foi por respeito, jamais por pena. Mané de Oliveira era grande, não precisava de pena, precisava sim de apoio e amparo. Só não achei que o momento deveria ser aquele. Guardei a melhor oportunidade. Passaram-se alguns dias até que criei coragem e comecei a traçar um caminho atrás do telefone que eu poderia ligar e falar diretamente com o Mané.

Quando o momento certo chega, tudo colabora para que não haja dificuldades e empecilhos. E assim foi. Procurei o amigo André Isac que prontamente me passou o telefone da esposa do Mané. Liguei logo em seguida para ela, mas como o Mané estava em uma sessão de quimioterapia, ela pediu que eu retornasse mais tarde. Foi o que fiz. Meu coração estava apertado pois queria falar com ele. Não pensei em palavras, apenas liguei. Ela me atendeu, passou o número do telefone que eu falaria diretamente com o Mané e disse que ele ficaria muito feliz com a ligação.

Liguei diretamente para o Mané e não esperava que atendesse pois tinha passado por uma sessão de quimioterapia. Ledo engano. Talvez eu tenha me esquecido que ele era forte para romper mais esta batalha. Do outro lado da linha o tom de voz inconfundível: “Alô!”. Não tinha como não saber que era ele. Logo me identifiquei e senti sua generosidade e respeito comigo, pois assim que me identifiquei ele falou: “Ô, meu amigo Luiz Cláudio…” sim, Mané de Oliveira, respeitosamente me adjetivou como um amigo. Logo algumas lágrimas começaram a marejar meus olhos, minha esposa ao meu lado ouvia atentamente as palavras que eu dizia a ele. Foi uma conversa franca, verdadeira e com muita emoção envolvida.

Nessa minha ligação, após esta cena ser revivida em minha memória, perguntei como ele estava se sentindo e se eu poderia fazer alguma coisa. Antes que respondesse aos meus questionamentos Mané me surpreendeu com uma enxurrada de elogios que JAMAIS pensei que ouviria dele. Nunca imaginei que ele tivesse tanta observância e carinho pelo que eu falava, lutava e dizia. Para mim, foi uma surpresa imensa. Talvez nenhum amigo tão próximo conseguirá falar o que eu ouvi de Mané de Oliveira. Foram palavras tão generosas, recheadas de conhecimento do sentimento que me movia em todos os meus rompantes e lutas na antiga AGECOM, hoje Agência Brasil Central. Ao ouvir que ele admirava minha honestidade, isso me desarmou pois poucas são as pessoas que conhecem que eu luto todos os dias para me manter íntegro em tudo o que faço. Mané falou como um amigo de verdade que eu jamais imaginei que tivesse na pessoa dele.

O encorajei para que se mantivesse firme, pois era necessário para muitas pessoas, inclusive pela luta incansável que tinha em busca de justiça pela trágica morte de seu filho Valério. Aí não teve jeito e choramos muito! Tentei me conter mas como se conter ao ouvir uma pessoa dizendo que estava lutando pela vida, por justiça e que esse momento seria somente mais uma decisão que ele precisa vencer na vida. Foi muito intenso, me emociono com tudo que eu pude ouvir e falar para ele. Mas não sabia que aquela ligação seria em tom de despedida. Não acreditava, pois estava distante, que ele estava muito debilitado devido a doença que o acometia.

Em uma das últimas conversas, frente a frente com Mané de Oliveira lá na ABC, comentei que a justiça estava demorando demais para dar uma resposta para o crime que havia acontecido. Mané, tão rápido respondeu: “Só Jesus na causa, para que isso ande e se resolva. Assim, todos serão condenados pela morte de Valério. Eu farei de tudo, nem que seja a última coisa que aconteça.”

Guardei esta frase por muitos anos, pois era um pai lutando por justiça, o que eu poderia dizer? E para a surpresa, talvez de muitos, penso que agora Mané de Oliveira está cumprindo sua promessa, ao dizer: “Só Jesus na causa”, pois lá está Mané, diante de Deus e de seu filho Jesus, clamando “pessoalmente” por justiça diante de outro Pai, que também teve seu filho covardemente morto. A justiça agora será feita.

Mané de Oliveira, meu muito obrigado pelas últimas palavras que trocamos. Palavras de encorajamento, de emoção, esperança e vida. Muito obrigado de coração e dê agora, aquele abraço que você prometeu ao seu filho Valério, no dia que você o sepultou. Aqui em baixo, estaremos todos unidos ao seu neto Valerinho, aguardando por justiça. Aquela JUSTIÇA QUE FALHA POR TARDAR.

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