Reestreia de Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?)

“São 17 lousas que Dona Margarida escreve quando anuncia algo que é muito importante. Para ela, o quadro é um instrumento de poder”, Abílio Tavares sobre a personagem - Foto de Jefferson Vanzo

Dramaturgia de 1971 discute opressão e autoritarismo,
temas ainda vigentes em 2020

Dar aulas online foi uma realidade enfrentada por muitos professores e professoras no mundo todo, por causa da pandemia. Preparados ou não, foram obrigados a expor suas casas e formas de viver em aulas preparadas em formatos e plataformas que nem sempre dominavam. Dona Margarida é a nova professora do quinto ano primário e como tantos, precisa dar aulas online. O formato em que destila suas opressões mudou, é virtual, mas a verve arrogante é a mesma de quando o texto foi criado. Em sua sala de aula, pouco se fala em liberdade ou autonomia.

Autoritária, centralizadora e altamente provocativa, a personagem foi criada em 1971 pelo dramaturgo Roberto Athayde em Apareceu a Margarida, texto escrito no contexto da ditadura civil-militar brasileira e que logo se tornou um fenômeno de encenações dentro e fora do Brasil. O ator Abílio Tavares, que revisitou o texto em diversas ocasiões, encontra-se novamente com a professora em Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?), que após temporada de cinco semanas, reestreia dia 5 de setembro, em exibições ao vivo no YouTube A Dona Margarida Oficial sábados e domingos, 20h.

Nesta montagem, Abílio nomeou a peça como Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?) por flagrar nela uma espantosa atualidade. “Passados quase 50 anos, é como se a peça estivesse retomando a mesma força de quando foi escrita. A alteração no nome foi para enfatizar que hoje há muitas Margaridas autoritárias protagonizando a cena nacional”, reforça.

O ator também destaca que o título faz uma referência ao sucesso do espetáculo na história da dramaturgia brasileira, visto que ele recebeu mais de 400 montagens traduzidas para cinco idiomas em mais de trinta países. “De certa forma esta nova montagem da Margarida abre o cinquentenário da peça, que será comemorado em setembro de 2021”, destaca Abílio. O projeto tem direção de Nicolas Iso, que junto com Paula Zurawski coordena as ações pedagógicas do espetáculo; Marco Lima deu consultoria sobre direção de arte e Ewerton Correia participou da pesquisa e colaborou para a direção cênica.

“Seu desejo de controle total é frágil, e por isso ela precisa, o tempo inteiro, reafirmar a passividade dos alunos, a impotência deles” – Abílio Tavares sobre Dona Margarida

Os quatro cômodos e oito diferentes ângulos utilizados na montagem – a partir da casa do ator Abílio Tavares – criam uma dimensão de cenários variados e recursos cênicos que ampliam a narrativa. “Em todos os enquadramentos que são mostrados ao público durante a peça, há a presença da lousa. São ao todo 17 quadros que Dona Margarida escreve quando anuncia algo que é muito importante. Para ela, o quadro é um instrumento de poder”, conta o ator, ressaltando a numerosa ação de contrarregragem da peça, já que ele lida com objetos de sua casa o tempo inteiro, como panelas, mesas, cadeiras, utensílios de cozinha e as já citadas lousas.

Para o ator, o que torna Dona Margarida mais rica é a sua contradição“Ela é extremamente autoritária, opressora, mas é muito evidente o quanto ela está repetindo com os alunos um modelo que viveu e que não consegue se libertar. Ela oprime porque foi oprimida e isso a torna infeliz, diz Abílio, lembrando-se de um dos princípios da obra Pedagogia da Autonomia, do educador e filósofo Paulo Freire, em que o autor destaca que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

“Seu desejo de controle total é frágil, e por isso ela precisa, o tempo inteiro, reafirmar a passividade dos alunos, a impotência deles. Em vários momentos, ela afirma que a voz na sala de aula é dela e que os alunos não dizem ou sabem de nada porque são passivos”, finaliza Abílio.

Para a direção do espetáculo, Abílio convidou um jovem diretor, Nicolas Iso, para que fosse possível ter o olhar de uma nova geração sobre um texto tão emblemático e que ainda diz muito sobre o que vivemos enquanto sociedade. “Todo mundo quer ser Dona Margarida porque fomos criados acreditando que a busca pelo poder é a busca pela felicidade, mas a peça é uma alegoria sobre como esse poder nos afasta do que nos torna mais humanos, empáticos e de toda possibilidade de encontrar uma felicidade verdadeira”, diz o diretor.

Para ele, a peça é a demonstração de um ciclo vicioso que precisa ser quebrado e a relevância de uma nova montagem é justamente alertar para as questões que persistem nos dias de hoje. “Assistir a opressão de Dona Margarida contra os alunos e perceber a figura triste dela nos impulsiona a buscar uma educação e comunicação mais afetiva e amorosa”, finaliza.

Sobre o autor Roberto Athayde

Dentre as muitas colaborações de Roberto para o teatro, estão a peça Apareceu a Margarida (escrita em 1971 e estreada em 1973), de sua autoria, que, no Brasil, ganhou montagens de Aderbal Freire Filho protagonizada por Marília Pêra e que teve também montagens na França, na Argentina e nos EUA, entre outros países.

Sucesso nacional e internacional, o texto esteve em mais de quarenta produções na língua alemã, quase trinta na língua francesa, e já foi encenado em mais de vinte países. Foram 250 montagens em todo o mundo. Segundo o autor da peça, foi a montagem francesa com Annie Girardot interpretando Madame Margarite, que catapultou a peça pelo mundo.

SINOPSE

Dona Margarida é a nova professora do quinto ano primário que chega para preparar os alunos para o temido exame de admissão ao ginásio, segundo ela, a “prova mais terrível de quantas já fizeram até hoje”. Escrita em 1971, a peça combina elementos intensamente cômicos com elementos dramáticos. Essa releitura em 2020, com a participação de antigos companheiros na equipe de criação e de jovens artistas na pesquisa e colaboração para a direção cênica e a ação pedagógica, é o sétimo reencontro de Abílio Tavares com Apareceu a Margarida. Ensaiando desde janeiro para estreia em julho deste ano, no teatro convencional, o processo foi interrompido em março em função da pandemia e foi totalmente refeito, agora, para essa versão online.

FICHA TÉCNICA

Direção e Ação Pedagógica: Nicolas Iso

Consultoria Pedagógica: Paula Zurawski

Pesquisa e Colaboração para Pesquisa Cênica: Ewerton Correia

Consultoria em Direção de Arte: Marco Lima

Visagismo: Carol Badra (Consultoria) e Jefferson Vanzo (Criação)

Preparação física: Mahal Araujo Personal

Consultoria Corporal: Juliana Monteiro

Direção de vídeo abertura: Kleber Goes

Música: Hino da Cruzada Alfabética

Compositor: Roberto Athayde

Voz: Abílio Tavares

Arranjo e Produção Musical: Rodolfo Schwenger

Edição de vídeo: Felipe Rolli – NoName Estúdio de Animação

Consultoria Jurídica: Grupo Prismma

Comunicação Digital: BMG Comunicação

Assessoria de Imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques

Assistentes de Assessoria de Imprensa: Daniele Valério e Diogo Locci

Produção: MoviCena Produções

Assistente de Produção: Luciana Venancio

Assistência de Coordenação Geral: Karina Cardoso

Concepção, Viabilização, Coordenação Geral do Projeto e Atuação: Abílio Tavares

Agradecimento especial: Instituto Vladimir Herzog

SERVIÇO

Reestreia de Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?)

Releitura de Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde

De 5 de setembro a 27 de setembro de 2020 | Sábados e domingos, às 20h *

* As sessões serão exibidas ao vivo e não ficarão registradas no canal

Acesso gratuito | OndeYouTube A Dona Margarida Oficial

Duração: 50 min. | Classificação: 12 anos

REDES SOCIAIS DO ESPETÁCULO:

Instagram @adonamargaridaoficial

facebook: @adonamargaridaoficial

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