Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?) ganha versão ao vivo e online com Abílio Tavares

Foto - Jefferson Vanzo

 Além do espetáculo, também estão previstas as Lives Margaridianas, cinco debates em torno de áreas como educação, opressão, direitos humanos, teatro, confinamento e educação sexual.

Dona Margarida é a nova professora do quinto ano primário. Em sua sala de aula, pouco se fala em liberdade ou autonomia. Autoritária, centralizadora e altamente provocativa, a personagem foi criada em 1971 pelo dramaturgo Roberto Athayde em Apareceu a Margarida, texto escrito no contexto da ditadura civil-militar brasileira e que logo se tornou um fenômeno de encenações dentro e fora do Brasil. O ator Abílio Tavares, que revisitou o texto em diversas ocasiões, encontra-se novamente com a professora em Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?) que estreiou dia 25 de julho, em exibições ao vivo no YouTube A Dona Margarida Oficial. O projeto tem dramaturgismo de Nicolas Iso, que junto com Paula Zurawski coordena as ações pedagógicas do projeto; Marco Lima deu consultoria sobre direção de arte e Ewerton Correia participou da pesquisa e colaborou para a direção cênica.

Sobre o autor Roberto Athayde

Dentre as muitas colaborações de Roberto para o teatro, estão a peça “Apareceu a Margarida” (escrita em 1971 e estreada em 1973), de sua autoria, que, no Brasil, ganhou montagens de Aderbal Freire Filho protagonizada por Marília Pêra e que teve também montagens na França, na Argentina e nos EUA, entre outros países. Sucesso nacional e internacional, o texto esteve em mais de quarenta produções na língua alemã, quase trinta na língua francesa, e já foi encenado em mais de vinte países. Foram 250 montagens em todo o mundo. Segundo o autor da peça, foi a montagem francesa com Annie Girardot interpretando “Madame Margarite” que catapultou a peça pelo mundo.

 Roberto também assinou a tradução da primeira montagem brasileira de “O mistério de Irma Vap”, de Charles Ludlam, grande sucesso nas carreiras de Marco Nanini e de  Ney Latorraca e levada aos palcos, em 1986, sob a direção de Marília Pêra. De lá para cá, escreveu 26 peças, quatro romances, muitos livros infantis, produziu uma minissérie, dois documentários, um curta-metragem e alguns programas de televisão.

Concepção da montagem Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?)

Nesta nova montagem, Abílio nomeou a peça como Todo Mundo Quer Ser Dona Margarida (?) por flagrar uma espantosa atualidade. A peça marcou seu primeiro trabalho como diretor, ainda em Minas Gerais, em 1980, aos 18 anos. Em seguida, participou de montagens e exercícios em 1982, 1983, 1995, 2006 e 2017. Para Abílio, suas temáticas nunca foram tão atuais. “Passados quase 50 anos, é como se a peça estivesse retomando a mesma força de quando foi escrita. A alteração no nome foi para reforçar que hoje há muitas Margaridas autoritárias protagonizando a cena nacional”, reforça.

O ator também destaca que o título faz uma referência ao sucesso do espetáculo na história da dramaturgia brasileira, visto que ele recebeu mais de 400 montagens traduzidas para cinco idiomas em mais de trinta países. “De certa forma esta nova montagem da Margarida abre o cinquentenário da peça, que será comemorado em setembro de 2021”, destaca Abílio.

Em 2020, as adaptações feitas no texto servem para situar a Dona Margarida no contexto da pandemia e do EAD (Ensino à Distância). Idealizada a princípio para os palcos convencionais, com os protocolos de isolamento, a peça foi ambientada na casa do ator e mentor do projeto, Abílio Tavares. Nessa configuração, quatro cômodos e oito diferentes ângulos criam uma dimensão de cenários variados e recursos cênicos que ampliam a narrativa.

“Em todos os enquadramentos que são mostrados ao público durante a peça, há a presença da lousa. São ao todo 17 quadros que Dona Margarida escreve quando anuncia algo que é muito importante. Para ela, o quadro é um instrumento de poder”, conta o ator, ressaltando a numerosa ação de contrarregragem da peça, já que ele lida com objetos de sua casa o tempo inteiro, como panelas, mesas, cadeiras, utensílios de cozinha e as já citadas lousas.

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 Nas vivências diversas como Dona Margarida, Abílio destaca a ocasião em que encenou a professora numa sala de aula convencional sem que os alunos soubessem que se tratava de uma peça de teatro, causando espanto em todos devido à rigidez de Margarida, e resultando na reação violenta de uma das alunas, que antes de se retirar da sala de aula, puxou seus cabelos

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Para o ator, o que torna Dona Margarida mais rica é a sua contradição. “Ela é extremamente autoritária, opressora, mas é muito evidente o quanto ela está repetindo com os alunos um modelo que viveu e que não consegue se libertar. Ela oprime porque foi oprimida e isso a torna infeliz”, diz Abílio, lembrando-se de um dos princípios da obra Pedagogia da Autonomia, do educador e filósofo Paulo Freire, em que o autor destaca que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

“Seu desejo de controle total é frágil, e por isso ela precisa, o tempo inteiro, reafirmar a passividade dos alunos, a impotência deles. Em vários momentos, ela afirma que a voz na sala de aula é dela e que os alunos não dizem ou sabem de nada porque são passivos”, finaliza Abílio.

LIVES MARGARIDIANAS COM CONVIDADOS

Temas centrais da peça suscitam discussões que foram divididas em vários tópicos e que serão abordadas por especialistas em diferentes áreas por meio de lives no instagram @adonamargarida às terças-feiras, 19h, entre 28 de julho e 25 de agosto. Os títulos dos encontros foram escolhidos a partir de cinco falas emblemáticas de Margarida, personagem que metaforiza um sistema de educação baseado na repressão.

Além dos convidados especiais de cada um desses encontros, estarão presentes em todas as lives, apresentando e comentando-as, Nicolas Iso e Paula Zurawski, responsáveis, respectivamente, pela ação pedagógica/dramaturgismo e pela consultoria pedagógica do projeto que tem coordenação geral de Abílio Tavares.

4 de agosto

Opressões: Quais são os que merecem? São aqueles que obedecem (?)

Com Ana Roxo (dramaturga, atriz, roteirista, youtuber, podcaster, escritora, desenhista e estudante de filosofia. Cursou Artes Cênicas na ECA-USP e EAD-USP e atualmente cursa Filosofia na Unicamp. Além do podcast Calma, Gente Horrível, é dramaturga e atriz da Cia. Auspiciosa, tem um canal no YouTube – O mundo segundo Ana Roxo – e teve um programa semanal chamado Caixa Preta no Nocaute – o blog do Fernando Morais) e outro convidado a definir

“Mas Dona Margarida não quer ser dura com vocês. Para Dona Margarida,

a melhor aula é aquela em que há uma atmosfera de compreensão, de

estima, de amor entre os alunos e a professora. A mesma atmosfera de

solidariedade e carinho que cada um de vocês encontra em sua casa, no seio

da sua família. E para merecer isso, para serem gratos a todos esses

privilégios, que virtude vocês devem cultivar? A OBEDIÊNCIA! Ela é a rainha

de todas as qualidades.”

 

O que é merecimento? O que é meritocracia? O que devemos fazer para merecer algo? A maior virtude do homem é a obediência? Mas obedecer a quem? E ao quê?  Como essas ideias nos oprimem? Quem ganha com a obediência? Obedecer a padrões sociais também oprime?

11 de agosto

Educação Sexual: Vocês só querem saber de sacanagem (?)

Convidados a definir

A aula de hoje é de Biologia. Não pensem vocês que isso aqui vai ser uma

aula de educação sexual. Não pensem vocês que eu vou me dar ao ridículo de

ensinar a vocês os fatos da vida. Pois fiquem sabendo que os fatos da vida só

se aprendem no terceiro ano ginasial. Podem perder logo as esperanças de

que eu vá ensinar vocês a beijar, a chupar, a fornicar. Nada disso…”

Educação sexual é ensinar sacanagem? É ridículo ensinar sobre sexualidade? Falar de sexualidade com crianças e adolescentes é sexualizá-los precocemente? De quem é o papel de educação sexual? Os alunos podem aprender sobre isso na escola ou devem aprender na rua, ou com a família? Educação sexual tem mesmo alguma importância?

18 de agosto

Direitos Humanos: É como se nós não existíssemos (?)

Com Crislei Custódio (doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, formadora do projeto Respeitar é preciso! do Instituto Vladimir Herzog) e outro convidado a definir

“Algum de vocês pediu pra nascer? Não?

Algum de vocês foi consultado sobre a conveniência do seu nascimento? Não?

Então! Já viram vocês que a escola, sendo um segundo lar, é a mesma coisa.

Que coisa bonita! Vocês têm que se conformar que aqui dentro dessas paredes

vocês não mandam nada. É como se vocês não existissem…”

Devemos ficar passivos sem dizer nada? Nós não mandamos nada? Devemos nos conformar? Quem nos garante o direito à nossa própria existência? Os direitos humanos existem para que e para quem? Quando e como se deve começar a falar e respeitar os direitos humanos?

25 de agosto

Teatro e isolamento social: Vamos terminar todos enterrados, um por um (?)

Convidados a definir

“O terceiro princípio é o mais importante. É o fim da biologia. Eu, como boa

professora, tenho que anunciar uma coisa que vocês, como são crianças, ainda

não sabem. Mas têm que saber. É que todos vocês vão morrer. Todos, sem

exceção. Dona Margarida vai escrever no quadro-negro que é para vocês se

lembrarem…”

“É isto que vem a ser o princípio final da biologia: vocês terminam enterrados

um por um. É uma verdade primária que vocês têm que aprender no curso primário…”

O teatro está morrendo? É possível fazer teatro sem a presença física? Teatro online continua sendo teatro? Como usar os meios digitais para a produção teatral? Estamos condenados a sermos enterrados um por um? Estamos nos enterrando?

SINOPSE

Dona Margarida é a nova professora do quinto ano primário que chega para preparar os alunos para o temido exame de admissão ao ginásio, segundo ela, a “prova mais terrível de quantas já fizeram até hoje”. Escrita em 1971, a peça combina elementos intensamente cômicos com elementos dramáticos. Essa releitura em 2020, com a participação de antigos companheiros na equipe de criação e de jovens artistas na pesquisa e colaboração para a direção cênica e a ação pedagógica, é o sétimo reencontro de Abílio Tavares com Apareceu a Margarida. Ensaiando desde janeiro para estreia em julho deste ano, no teatro convencional, o processo foi interrompido em março em função da pandemia e foi totalmente refeito, agora, para essa versão online.

 

FICHA TÉCNICA

Pesquisa e Colaboração para Direção Cênica: Ewerton Correia

Ação Pedagógica e Dramaturgismo: Nicolas Iso

Consultoria Pedagógica: Paula Zurawski

Consultoria em Direção de Arte: Marco Lima

Assistência de Coordenação Geral: Karina Cardoso

Visagismo: Carol Badra (Consultoria) e Jefferson Vanzo (Criação)

Preparação física: Mahal Araujo Personal

Consultoria Corporal: Juliana Monteiro

Identidade Visual e direção de vídeo abertura: Kleber Goes

Edição de vídeo: Felipe Rolli – NoName Estúdio de Animação

Consultoria Jurídica: Grupo Prismma

Comunicação Digital: BMG Comunicação

Assessoria de Imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques

Assistentes de Assessoria de Imprensa: Daniele Valério e Diogo Locci

Produção: MoviCena Produções

Concepção, Viabilização, Coordenação Geral do Projeto e Atuação: Abílio Tavares

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