Novas regras afetam permanência de estudantes brasileiros nos EUA

Centenas de milhares de estudantes estrangeiros nas universidades e colégios dos Estados Unidos amanheceram nesta terça-feira sem saber se poderão continuar com suas vidas no próximo ano letivo, que começa em setembro. Segundo uma circular publicada de surpresa na segunda-feira pelo Departamento de Imigração, eles precisarão ir embora do país se as aulas forem apenas on-line. Mais ainda, se tiverem aulas presenciais no ano que vem, e em algum momento passarem ao modo remoto, também terão que deixar o país, sob pena de serem deportados. Numa nação com mais de 5.000 centros de ensino superior e mais de um milhão de alunos internacionais, a quantidade de casos abrangidos é infinita, e a incerteza é total.

“É incrível que, numa situação já por si só de tanta incerteza, se faça uma política tão agressiva”, afirma, de Barcelona, Jaume Vives, doutorando do MIT. Em março, ele havia renovado por um ano seu aluguel em Boston, que divide com dois colegas. Naquele mês, com o começo da pandemia, a universidade transferiu todas as aulas para a Internet e pediu aos alunos que voltassem às suas cidades. Vives planejava regressar aos EUA em agosto. Afirma que o MIT está oferecendo muitas facilidades, mas mesmo assim não sabe nem mesmo se for poderá entrar novamente nos EUA: “A incerteza se estende a todo o próximo ano letivo. Muitas universidades fizeram planos de estudos em que só se pode ficar um semestre no campus”.

A ordem afeta a dois tipos de vistos de estudante, chamados F e M. Vives tem um visto F. Em 2019, foram concedidos quase 389.000 documentos desta modalidade, e 9.500 do tipo M. Apenas dois países concentram, juntos, mais de meio milhão de alunos estrangeiros: China e Índia. Segundo um estudo da Associação de Educadores Internacionais (Nasfa), esses estudantes deixaram 36,9 bilhões de dólares (quase 200 bilhões de reais) no país no ano letivo de 2016-2017.

As condições para obter um visto de estudante incluem que as aulas não podem ser remotas. Quando toda a educação se transferiu para a Internet devido à pandemia, a Imigração abriu uma exceção para esses vistos não fossem cancelados. E essa exceção foi cancelada para o próximo ano letivo. A circular da agência migratória faz referência a uma ordem oficial a ser emitida “em um futuro próximo”.

No texto há pelo menos uma zona cinzenta a ser concretizada. Em um dos pontos, consta que serão permitidas mais aulas on-line que o habitual em instituições que estabelecerem um “modelo híbrido”. Também se diz aos estudantes que eles podem se transferir para outra universidade que ofereça aulas presenciais. A ordem aparece justamente quando estas instituições estão publicando seus planos para o ano que vem. Os exemplos vão desde aquelas que já começarão as aulas totalmente on-line, como Harvard, até as que tem sistemas híbridos de algum tipo. As universidades estavam justamente decidindo seus planos nos últimos dias.

Na terça-feira à noite, o Departamento de Estado emitiu uma breve nota de imprensa intitulada: “Estudantes internacionais são bem-vindos”. No texto, afirma que as novas normas “permitirão uma mistura de curso presenciais e on-line para cumprir os requisitos para o status de estudante não imigrante (os vistos F e M mencionados)”. O departamento parece confirmar que a única saída é encontrar modelos de estudos mistos.

A situação dos estudantes também acrescenta suas próprias variáveis. Jaume Vives, por exemplo, cogita como pior cenário ficar em Barcelona e tirar um ano sabático se não haver forma de voltar em setembro ao MIT. Mas há gente em seu doutorado, especialmente em etapas mais avançadas, que se mudou para Boston com a família, e esta situação pode obrigar essas pessoas a voltarem aos seus países.

A agressividade da Administração Trump neste sentido faz que mesmo quem não foi especificamente atingido pela medida tema por seu futuro. O outro visto de estudante mais comum é o tipo J, como o que tem Javier Padilla, doutorando em Ciências Políticas na City University de Nova York (CUNY). Viajou à Espanha por motivos familiares, com a ideia de voltar em agosto. Acha que é questão de tempo até ser afetado. “Agora as universidades têm que escolher qual modelo de estudos terão. Isso gera uma dinâmica muito perigosa, as obriga a abrir e a pôr as pessoas em risco. Para muitos, perder o visto pode significar também perder a bolsa”, diz Padilla.

Na manhã desta terça-feira, a portaria do departamento de Imigração gerava confusão nos emails dos departamentos de admissão e dos grupos de estudantes no WhatsApp. A senadora Elizabeth Warren escreveu no Twitter que “expulsar os estudantes internacionais em meio a uma pandemia global” é “um sem-sentido, cruel e xenófobo”, e exigiu que a decisão seja “imediatamente” revertida. Stephen Walt, professor de Assuntos Internacionais na Escola Kennedy de Harvard, escreveu “Assumo que Trump e Miller [Stephen Miller, seu assessor de imigração] estão adorando que os estudantes acabem na Universidade de Tsinghua (China)”. O governador de Nova Jersey, Phil Murphy, disse que “não podemos ser um líder mundial [como país] se fecharmos a porta ao futuro dos estudantes”.

Para dar uma ideia da confusão, as universidades não tinham muito mais informações que os estudantes. A Universidade do Sul da Califórnia, uma instituição privada com muitos alunos internacionais, publicou um comunicado em que prometia fornecer informações assim que possível e dizia que seus funcionários estão “trabalhando diligentemente para verificar como ajudá-los”. Algo parecido afirmou a Universidade da Flórida a seu corpo discente. Ainda não há respostas. Ao menos dois abaixo-assinados começaram a circular na rede na manhã desta terça pedindo que a decisão seja revertida. Horas antes do anúncio, sem que ninguém soubesse ainda o porquê, o presidente Donald Trump havia tuitado: “AS ESCOLAS PRECISAM ABRIR NO OUTONO!!!”.

Fonte: Elpais

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