Senta que vem história

Não é segredo para ninguém que sou servidor público do Estado e que trabalho na ABC – Agência Brasil Central. Também não é segredo que critico atos internos da autarquia desde 2010, quando iniciei no serviço público e ainda sob a temida avaliação do estágio probatório.

*Por Luiz Cláudio do Nascimento

Avaliação intimidadora que assustava muitos dos novos servidores, mas que, para mim, foi um motivo desafiador para que eu buscasse me superar sempre na execução de todas as minhas tarefas. Tanto é que, se eu não estiver enganado, fui o único a obter nota 10 em todos os quesitos das avaliações ao longo dos meus três primeiros anos no serviço público estadual.

Sempre questionei muito sobre coisas do meu ambiente de trabalho. E ouvi muitas histórias que fazem parte da história da própria ABC. Histórias que, se eu contasse, poderia ter problemas por não ter como prová-las. Por isso, decidi apenas deixá-las guardadas em minha memória e na língua de seus delatores que, ao longo de muitos anos, testemunharam de perto situações que até Deus duvida.

Antes de me tornar servidor público, eu atuava no setor privado, onde o cotidiano do empregado se resume a produzir, produzir e produzir. Sem questionar nada do que vê, ouve ou que lhe mandam fazer, deve apenas executar o seu trabalho. Nesse contexto, como em uma linha de produção, por muito tempo segui a mesma rotina diária: chegava, ouvia, calava, obedecia, trabalhava e ia embora, dia após dia.

De 2010 para cá, muita coisa deveria ter mudado na realidade do serviço público que conheço. No setor privado, certamente teriam mudado pessoas, o próprio ambiente de trabalho, o maquinário, formas de execução de processos e o que mais fosse necessário. Mas, na ABC, nada disso aconteceu até agora. Parece que paramos no tempo, e com as mesmas pessoas, salvo a saída ou a entrada de um ou de outro comissionado indicado apenas por ser amigo de algum deputado estadual ou federal. No entanto, preciso ser justo com os colegas comissionados e dizer que muitos deles são bastante competentes no trabalho que realizam, superando o pouco mérito de suas indicações políticas. De fato, muitos honram o posto que ocupam, mas nem todos.

Ao longo desse tempo, tivemos presidentes de todos os tipos na ABC. Houve um que não tinha a habilidade social necessária para nos cumprimentar e, quando o fazia, era com uma má vontade inacreditável. Seu irmão, no entanto, tinha uma postura diferenciada: era educado e tratava as pessoas muito bem, mas durou pouco tempo lá. Tentou promover mudanças e, arrisco dizer que, se tivesse mais tempo, talvez ele tivesse feito mais – respeito quem não concorda comigo. Agradaria uns, desagradaria outros. Mas no serviço público quem agrada todo mundo?

Tivemos ainda presidente sem papas na língua, que agia como se a ABC fosse extensão de sua rádio privada. Tomava decisões de forma absurda. Ah! Quando veio um que tinha vínculo com o SEBRAE, pensei: “Agora, vai.” Não foi. O que foi, foi a sua curta permanência após uma única reunião com os servidores debaixo de uma árvore. Houve outros? Sim. Desde o início da minha carreira pública em dezembro de 2010, presidiram a ABC 19 pessoas, dos quais 15 foram presidentes efetivos e 4 foram presidentes interinos.

O que não muda muito são as chefias. Sim, essas são ao estilo ad aeternum. Assistem a todas as mudanças, acompanham e auxiliam de perto os seus presidentes – até a sua queda ou substituição. São expectadores privilegiados, pois, do camarote da chefia, testemunham tanto os primeiros quanto os últimos minutos de todo presidente que passa.

Conforme eu disse, as chefias têm sido expectadores privilegiados. Mas não são os únicos expectadores. Nós, servidores, das arquibancadas e da geral, também temos visto cada chegada e cada partida sem saber exatamente por que esse presidente chegou ou por que aquele outro saiu. E, claro, as conversas da rádio peão tomam conta dos corredores e suas teorias são as mais diversas. Eu, como sempre, ouço todas as histórias; escolho e replico aquela mais fácil para explicar e que, ao mesmo tempo, cause maior reverberação junto aos que me ouvem. Faz parte.

Recentemente, com a disputa acirrada entre dois grandes grupos políticos do Estado, ficou evidente a predileção de um grupo pequeno e seleto da ABC pela permanência de um certo presidente, contrastando com o desejo de mudança da grande maioria dos que lá trabalham. Das arquibancadas e da geral, a esperança de que houvesse mudança era significativamente maior do que o desejo de que tudo continuasse como estava. Mas, naquela altura dos acontecimentos, a definição da situação dependia muito mais dos eleitores do que de nós, servidores da ABC. Com a derrota do continuísmo, o ranger de dentes e as lágrimas escorrendo pela face foram mais observadas do que a comemoração de quem desejava mudanças.

Antes que me acusem de alguma parcialidade, reconheço que sou simpatizante das políticas dos partidos de esquerda. Sim, até poucos dias atrás, eu era filiado ao PSOL de Goiás. Agora, por motivos de saúde, decidi me afastar das lutas políticas, dos debates acalorados e da militância. Mas, assim como o dono do gato mantém um olho no bichano e o outro no seu peixe, eu mantenho um olho no meu tratamento de saúde e o outro no lugar em que trabalho.

Novos tempos. Lá vamos nós para a primeira presidenta EFETIVA da ABC nesses 10 anos em que estou no Estado. E não parece ser uma presidenta comum. Ouvi algo, no PPLT, que diz bem quem é a atual presidenta: “Ela é uma pessoa técnica e sabe bem o que faz. E errou quem pensa que ela tem só a carta branca. Ela tem a carta e o envelope brancos para propor todas as mudanças necessárias que a ABC precisar. Tem o respaldo do Governador Ronaldo. Quer mais ou tá bom ‘pra’ você?”. Bom, nunca entrei em rota de colisão com quem tem o poder nas mãos. Questiono um chefe aqui, outro acolá. Mas não cometeria a imprudência de fazer qualquer pré-julgamento sobre a atual presidenta.

O que me faz evitar fazer qualquer tipo de ilação sobre a atual presidenta da ABC neste momento? Deixe-me explicar esse posicionamento por meio de um paralelo com outra situação. Sou crítico da antiga administração do SENAC – instituição da qual sou aluno e onde tive e tenho bons professores -, que estava então sob a direção do ex-presidente Evaristo. Quanto à atual administração dessa instituição, no entanto, evitarei comentar agora. Acredito ser melhor aguardar um pouco mais e recomendar apenas que tenham juízo.

A presidenta da ABC, a Sra. Sofia Bezerra Coelho da Rocha Lima, quem é? Pouco sei dizer sobre ela, mas suas ações estão promovendo tudo aquilo que eu sempre quis que acontecesse na ABC: mudanças. Estou afastado do trabalho, mas até mim chegam informações de que a presidenta está fazendo alterações profundas que estão mudando radicalmente hábitos antigos dentro da Agência. E, como ouço tudo, já me asseguraram que vem muito mais por aí. Se com as poucas mudanças que aconteceram eu já me encontro satisfeito, com as que ainda podem vir terei um bônus de felicidade.

Desejo que sejam feitas as mudanças que a Agência precisa, que o serviço público precisa e que os ouvintes e telespectadores merecem. Desejo que a ABC continue mudando e que essas mudanças sejam contínuas, sejam duradoras e tenham bons resultados. Eu acredito que é possível.

Ainda não conheci pessoalmente a atual presidenta da ABC, mas quero logo voltar ao trabalho para, da arquibancada, observar quem nos preside. E já deixo registrado aqui que tenho orgulho de, em um momento tão nebuloso como o que vivemos em nosso país, ser chefiado por uma mulher. O mesmo eu falei para a ex-chefe de gabinete da SEGOV, Secretaria de Governo Vera Quixabeira. E hoje sou chefiado diretamente por outra mulher, Susete Amâncio.

Desejo que a presidenta Sofia permaneça por muito tempo na ABC, que não sofra com pressões externas daqueles que desejam a continuidade de antigas práticas e que promova todas as mudanças que julgar necessárias. Serão bem-vindas, muito bem-vindas. Só me resta torcer a favor de seu trabalho, desejar-lhe muita sorte e pedir que não desista da nossa Agência Brasil Central. Afinal, temos bons profissionais que realizam um excelente trabalho ali.

Quem achava que 2020 estava perdido, vai perceber que ainda há muito ano para acontecer, não é mesmo?

Vamos que vamos. Paz e bem para quem chegou até aqui.

*Luiz Cláudio Cavalcante é Jornalista e Servidor Público Estadual

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2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo excelente texto, Luiz! Realmente, você é um grande observador. Sejamos críticos do bom trabalho e do péssimo. Porque muita gente pensa que a palavra crítica é negativa e ainda coloca uma outra junto ‘construtiva’ para amenizar a situação. Enfim, desejo um excelente trabalho para ela. Mulher, né? Então podem confiar que as mudanças serão profundas, sensíveis e de acordo com a estrutura que a ABC precisa.

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