Vitamina D: a cura para o coronavirus?

Com tanta informação e inúmeros artigos falando sobre a vitamina D e que esta seria a possível cura para o coronavirus – covid-19, pesquisamos e para saber mais sobre o assunto, conversamos com um dos especialistas mais renomados de São Paulo.

Em uma entrevista super descontraída, o Dr. Renato Leça* respondeu as perguntas que vinham sendo feitas não apenas por nossos colegas aqui da redação, mas também por nossos leitores.

Tomar vitamina D durante a pandemia de coronavírus pode ajudar o paciente a prevenir a doença? Pode explicar em detalhes o que os cientistas chamaram de “apoio no tratamento, mas não a cura”? 

Conforme o relatório italiano, os pacientes que foram infectados apresentam baixos níveis de vitamina D. Na verdade, prevenir é uma palavra forte, mas com o especial objetivo de estar melhor preparado imunologicamente, dado que a vitamina D tem cientificamente comprovada sua ação imunomoduladora, estimulando as respostas do organismo contra microorganismos agressores. Já o apoio no tratamento vai no mesmo caminho citado anteriormente, aumentando as “defesas” do organismo, especialmente nos casos onde o organismo é “novo”, ainda não sendo reconhecido pelo sistema imunológico, na chamada resposta humoral, que envolve anticorpos – neste caso não há anticorpos formados (mecanismo da vacina), então, o organismo envia ao combate os glóbulos  brancos (monócitos, neutrófilos, citocinas, etc), e nessa linha de defesa a vitamina D apresenta importante função, modulando-a e estimulando-a. Lembremos que ao nascer temos ainda um sistema de anticorpos muito incipiente, e a defesa do organismo se dá por essa estratégia inata (ataque direto).

Por que a vitamina D pode fazer a infecção não se agravar?

Em rápidas palavras,  modulando a reação da imunidade inata, e com isso atacando o agente agressor de forma a impedir sua progressão, sua multiplicação dentro do organismo.

O que esse momento de pandemia pode dizer sobre a vitamina D?  

Vivemos em uma já conhecida epidemia de hipovitaminose D, especialmente comum nos países mais desenvolvidos do hemisfério norte, onde o número de horas de exposição solar, especialmente no outono e no inverno, é pequena. Mesmo em paises tropicais como o  Brasil, os níveis plasmáticos da vitamina D são baixos. O fato de ficarmos cada vez mais trabalhando em escritórios (fechados) tem um grande efeito sobre isso.

Na evolução dos seres humanos, quando houve a migração dos nossos antepassados para o norte, da África para a Europa, apenas após uma mutação genética, que permitiu o aparecimento da pele mais clara do que a original negra, permitiu a sobrevivência dessas pessoas nesses países mais frios, e por consequência, com menor tempo do brilho do sol.

Ainda hoje, o número de doenças nas pessoas de pele mais escura que vivem na Escandinávia é bem maior do que nas de pele clara.

Fizemos uma pesquisa científica com alunos de medicina da Faculdade de Medicina do ABC e comprovamos que os alunos que praticavam atividades físicas em ginásios (quadras cobertas) tinham níveis sanguíneos (plasmáticos) de vitamina D cerca de 50% menores do que os níveis sanguíneos do grupo de alunos que praticavam atividades físicas ao ar livre, com maior tempo de exposição solar que o outro grupo. Esse trabalho científico foi apresentado e bem aceito em congressos internacionais.

Qual a recomendação para essas pessoas com baixo nível de vitamina D?

É necessário nos expormos ao sol, no mínimo 15 minutos, de preferência entre 10 e 14h, quando os  raios UV, que ativam o metabolismo de formação da vitamina D a partir da pele, minimamente com os braços descobertos – claro q sem o uso de protetores solares. Nesta época de quarentena é importante seguirmos essa recomendação.

De que forma as pessoas podem compensar essa deficiência? Existem outras formas além do banho de sol?

A exposição ao  sol é a principal forma de aumento da vitamina D, mas ainda é possível conseguirmos esse aumento com uma alimentação saudável balanceada – óleo de fígado de bacalhau, bife de fígado, gema do ovo, atum,  sardinha , etc; porém, de forma muito menos efetiva que a exposição solar.

Interessante citar que em 1903, o Dr. Niels Ryberg Finsen ganhou o prêmio Nobel de medicina estimulando o uso da luz solar na cura de doenças. Na época o raquitismo era muito presente na Europa do norte e, observou-se que as populações que consumiam bacalhau apresentavam menores taxas dessa doença, abrindo as portas para o ‘descobrimento’ dessa vitamina. Ele já sabia na época que o sol desencadeia a produção de hormônio D3 e em 1928 o Dr Adolf Otto Reinhold Windaus recebeu o Prêmio Nobel demonstrando as relações da vitamina D com os esteróides presentes no organismo, consolidando a idéia que na realidade a vitamina D é um hormônio e não uma vitamina. Hoje sabemos que praticamente todas as células do nosso corpo têm receptores de vitamina D.

A outra forma de aumentar os níveis de vitamina D é a partir do uso de suplementos , e a quantidade a ser tomada dependerá dos níveis plasmáticos de cada pessoa. Observo, na prática, grande prevalência de hopovitamose D.

Falando em números, os níveis de insuficiência de vitamina D plasmática é < de 30 nanogramas por mililitro (ng/ml), e a deficiência  de < 20 ng/ml; mede-se o metabólito 25 (OH) vitamina D3.

Quando a reposição por medicamentos é necessária?  

Quando em deficiência já está indicada, a suplementação. Porém, é interessante termos níveis maiores do que esses, próximos à zona de insuficiência, especialmente porque só acontecem problemas de superdosagem quando são tomadas doses muito altas e costumeiramente por muito tempo.

Há mais informações sobre a vitamina D que deveríamos conhecer?

É tido como um fato que, sem a vitamina D não haveria vida e que a hipovitaminose D está presente, o que significa que há ligação com um número muito grande de doenças,  onde a epidemia hipovitaminose D torna-se um problema de saude pública.

Tenho pesquisado muito a vitamina D nos olhos e, mesmo nesse órgão, encontramos a relação hipovitaminose D, relacionada às doenças oculares.

* Dr. Renato Leça é oftalmologista e nutrólogo, Mestre pela Unifesp, Professor de oftalmologia da Faculdade de Medicina do ABC e Coordenador das disciplinas de Medicina Integrativa e de Nutrologia com Pratica Ortomolecular da Faculdade de Medicina do ABC.

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