Uma lição de hermenêutica contra as “curas” da Bíblia

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Começo por referir que dedico a crônica de hoje às minhas amigas-irmãs teólogas brasileiras Maria Cecília Domezi (professora na PUC-SP) e Ivenise Teresinha  Gonzaga Santinon (professora na PUC- Campinas), duas figuras que muito me inspiram no que respeita ao sentido ético da existência e missão neste mundo.

Desta vez, volto a escrever sobre a questão religiosa, principalmente em relação ao deliberado uso e abuso do Divino por parte de todos os militantes e seguidores  do Partido Social Liberal, que, na prática, já instituíram a Bíblia como documento de uma nova Constituição do Brasil.

Se já é intimidatória a designação “bancadas do Boi, da Bíblia e da Bala”, ao instituírem as Sagradas Escrituras como fundamento de uma grande nação, Jair Bolsonaro e seus seguidores caíram no absurdo das mil blasfémias, fazem a civilização regressar aos tempos da Idade Média e a um ambiente inquisitorial, como, por exemplo, a reimplantação dos manicômios na rede de saúde do país, onde pretendem incluir gays na lista de internações de doentes mentais, a fim de lhes administrar a “cura bíblica”, “curando-os do pecado e da possessão do demônio”. E quem inclui gays, inclui também, mais tarde ou mais cedo, opositores políticos e cidadãos “indesejáveis”. Num país de pré-ditadura, não faltarão agentes da justiça e da medicina que assinem as determinações compulsórias.

A propósito do abusivo uso do Divino para fins políticos, na semana passada, o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, assinou um decreto que determina que as crianças nas escolas, além de cantarem o hino nacional, deveriam ser filmadas a dizer o slogan que foi usado por Bolsonaro na campanha eleitoral: “O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. Depois, houve uma enxurrada de críticas e o ministro recuou e disse reconhecer o erro. Ora bem, se queria invocar o nome de Deus, por que não disse “Deus acima de tudo e o Brasil acima de todos”? Porque Bolsonaro confunde o Brasil com a sua própria pessoa. Daí que, neste slogan, ele mesmo está acima de Deus; Jair acha-se o híper ou o mega-Deus.  Em todo o caso, não recomendo nenhuma das frases. Deixem Deus em Paz!

Já escrevi nesta coluna que sou cristão católico praticante e sou totalmente contrário ao uso institucional do nome de Deus e da religião. Para mim, Deus não é o centro do mundo; é o centro do coração humano. O resto que se faça em seu nome é rasgar as páginas do Evangelho.

O exemplo que dei sobre a reimplantação dos manicômios é uma das muitas e assustadoras medidas em que o novo poder  de Brasília diz encontrar na Bíblia. O anti-intelectualismo que se generaliza, que ostraciza quem sabe, que diz que a Terra é plana, que odeia e que mata, que se instituiu ferozmente, tem como figuras “intelectuais” como Olavo Carvalho, Alexandre Frota, Damares Alves, Osmar Terra, Ricardo Vélez Rodríguez e outros parodiantes estapafúrdios, de um circo tão paupérrimo, em que alguns dos “palhaços” chegam a afirmar que ter um curso bíblico é o mais importante no currículo profissional ou político.

Entender a Bíblia não é fácil, requer método, humildade, coração e tolerância. Ler a Bíblica literalmente, dispensando as múltiplas interpretações metafóricas e o caráter sociológico entre o tempo da escrita e o tempo de leitura, pode criar embustes tão graves como os que já assistimos ao longo da História. Embustes, como a Inquisição e a perseguição aos judeus, por exemplo. Aprendi que ensinar a Bíblia requer o estudo pormenorizado e muito cuidadoso da hermenêutica como disciplina por excelência.

O termo hermenêutica foi usado pela primeira vez em 1654, por J.C. Dannhauer, na publicação da obra com o título “Hermenêutica sacra sive methodus exponendarum sacrarum litterarum”. Segundo Martin Heidegger (1889-1976), o vocábulo provém semanticamente do verbo grego “hermeneuin” (interpretar), da família do substantivo “hermeneia” (interpretação), que, por sua vez, poderá ter derivado do nome do deus Hermes. Para o “mensageiro dos deuses”, a hermenêutica assentava em três condições básicas: dizer (afirmar, exprimir), explicar (ou explicitar contextualmente) e traduzir (aplicar, mediar). Os gregos atribuíam-lhe a capacidade de explicar o significado das coisas e transmiti-lo aos outros e, como tal, a descoberta da linguagem e da escrita. Na verdade, não obstante o significado hermenêutico mais antigo remontar aos princípios da interpretação da Bíblia, já na Antiga Grécia nos deparamos com filósofos e poetas que demonstravam a vontade de tornar compreensível a linguagem (religiosa, literária e jurídica) – a “arte da interpretação” (portanto, uma arte e não uma ciência). Tais foram, por exemplo, Xenofonte, Eurípedes, Lucrécio e Aristóteles (o “fundador” da “mimesis” da ação humana, que Paul Ricouer, um grande filósofo e humanista francês que viveu entre 1913 e 2005, veio a recuperar para esclarecer e “desmentir” as aporias do tempo de Santo Agostinho e fundamentar a sua hermenêutica da confiança, que acredita no poder revelador dos símbolos). E das revelações dos símbolos o que sabem os neopentecostais de Bolsonaro?

Ao entrarmos na era Cristã, a autoridade da Igreja Católica exerce a sua exegese medieval (explicação crítica) sobre as Escrituras e textos difíceis de decifrar, em que se seguia ainda o contexto apenas prático.

No século XVII, e em sequência do movimento da Reforma Protestante, de Lutero, vislumbrou-se o surgimento de novas perspectivas, dando-se lugar à hermenêutica moderna, já que o “grande reformador”, em 1536 – um século antes – traduzira a Bíblia para alemão, a fim de facilitar o acesso dos textos ao maior número de pessoas e que, na sua opinião, se tornassem autenticamente legíveis à luz da Palavra de Deus.

E assim se abriu a primeira janela do edifício de vários andares, que é a hermenêutica. Não havendo, ainda hoje, de fato, unanimidade sobre um conceito geral, a hermenêutica, segundo Palmer, subdivide-se em seis definições fundamentais, que passo a descrever, pedindo aos leitores que não se assustem com uma certa terminologia, porque, no final, explicarei melhor: a) Hermenêutica como teoria da exegese da Bíblia; b) Hermenêutica como metodologia filológica; c) Hermenêutica como ciência da compreensão linguística; d) Hermenêutica como base metodológica para as geiteswissenschaften; e) Hermenêutica como fenomenologia do Dasen e da compreensão existencial; f) Hermenêutica como um sistema de interpretação: recuperação de sentido “versus” iconoclasmo.

Passo, então, a explicar:

Hermenêutica como teoria da exegese da Bíblia: É o estudo dos princípios da interpretação dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento, inspirados por Deus, através da exegese, que, na sua relação dialética, tem por objectivo dar substância concreta aos significados bíblicos, realizando a aproximação destes à realidade. Não obstante a hermenêutica bíblica compreender todo o período de estudo das Escrituras, na verdade, a designação só ganha coerência a partir do século XVII, em que, devido às circunstâncias históricas (Reforma Protestante), se verifica o desenvolvimento de modelos conducentes e independentes de interpretar a Bíblia, com recurso à feitura de manuais por parte da Igreja Protestante, que transmitia a sua interpretação aos seus pastores, contra os sistemas de interpretação místicos, dogmáticos, humanísticos e outros por parte da Igreja de Roma. O fenômeno expande-se à Inglaterra e aos EUA. A hermenêutica passa a diferenciar-se da exegese enquanto metodologia da interpretação. Esta distinção surge, sem dúvida, do conceito de “hermenêutica bíblica”, que se revela fundamental para a evolução do fenômeno hermenêutico, a nível teológico e a nível da literatura não bíblica.
Hermenêutica como metodologia filológica: É o método histórico-crítico na teologia, com o advento da filologia clássica no século XVIII e, simultaneamente, com o desenvolvimento do racionalismo humanista. Esta metodologia estipulou um conjunto de normas gerais de exegese filosófica quanto aos diversos textos literários, incluindo a Bíblia. Fazia-se a interpretação das Sagradas Escrituras tanto a nível gramatical como histórico e defendia-se que os métodos de interpretação deviam ser os mesmos em relação aos textos não bíblicos. Os arautos da racionalismo, na sua teoria secular da interpretação (filologia clássica) procediam assim ao que se pode designar de “desmitologização” da Bíblia.  Era o princípio de que nem toda a literatura é religiosa.
Hermenêutica como ciência da compreensão linguística:  Foi com o protestante alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834) que se definiu que a interpretação já não se afigura como arte, mas como uma ciência. Este intelectual defendeu uma “hermenêutica geral”, não filológica, que congregue todos os tipos de interpretação de texto. Schleiermacher aspirou, para essa “hermenêutica geral”, combinar a hermenêutica de interpretação da Bíblia, nomeadamente as Epístolas de S. Paulo, e a hermenêutica utilizada pelos clássicos gregos.
Hermenêutica como base metodológica para as geiteswissenschaften:  Wilhelm Dilthey (1833-1911), fundador do historicismo alemão, falecido em 1911, foi discípulo de
 Schleiermacher e seu biógrafo. Dilthey advoga que a hermenêutica é a disciplina central que reúne todas as disciplinas centradas na compreensão da arte, do comportamento e escrita do homem, considerando o intérprete como um ser “vivo” mergulhado no seu contexto histórico. Defende que só assim o intérprete (o sujeito pensante, o homem concreto) se torna capaz de compreender e penetrar no contexto cultural e histórico do texto analisado. Dilthey não só se debruçou sobre as Sagradas Escrituras e sobre os clássicos gregos, como alargou a importância do “círculo hermenêutico” para as ciências humanas, com preponderância historicista, contrariando uma abordagem de causa e efeito (conhecimento nas ciências naturais). Esta libertação cultural retirou à Bíblia o peso institucional, não a impondo a ninguém, como uma obrigação.
Hermenêutica como fenomenologia do Dasein e da compreensão existencial: Heidegger e Gadamer são os mentores de um novo paradigma, em que a hermenêutica é um método especial das ciências do espírito, diferente de Dilthey. Heidegger contraria o pensamento historicista de Dilthey, através do estudo fenomenológico do existente humano Dasein (ser-aí) e da compreensão da existência, cujas dimensões ontológicas da compreensão e da interpretação são os modos com que se funda a existência humana. Heidegger, inspirado nos filósofos clássicos, debruça-se no Ser, na hermenêutica da facticidade e teoriza que o tempo do Ser alcança integramente o Dasein (ser-aí), que, na sua concepção, é constituído por quatro dimensões: presente, passado, futuro e a sua relação. É desta maneira que a ontologia do ser, de Heidegger, demonstra a relação do homem com o mundo e com os outros.
Hermenêutica como um sistema de interpretação, recuperação de sentido “versus” iconoclasmo: É com Paul Ricoeur que a hermenêutica assume a sua fase mais crítica, em virtude da importância que dá ao fenómeno da linguagem e ao que designa por ciências da linguagem, graças a um tratamento específico, exaustivamente elaborado. Partindo de uma da hermenêutica da confiança, fundamenta que o sujeito tem de ser o centro das atenções, numa atitude ontológica, que a tarefa hermenêutica consiste na interpretação não só dos textos mas dos signos e dos símbolos e que só assim se torna possível compreender a condição humana. Ricoeur reflete sobre o tempo e “desmente” as aporias do tempo de Santo Agostinho. Analisa o conflito das interpretações e chega à conclusão ética que o diálogo é fundamente com o “outro” e com as instituições, num processo vivo de alteridade (qualidade do que é outro)  e ipseidade (o próprio homem como essência).

 

Como vimos, o estudo da Bíblia é um caminho longo, milenar, sempre incompleto mas inovador. Não é um objeto doméstico para ser consumido egoisticamente.

É um patrimônio mundial sobre o qual exige conhecimento para o manejar, não como uma determinada senhora que sempre que comprava a loteria da sorte grande guardava o respetivo talão entre as páginas das Sagradas Escrituras até à hora do sorteio.

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