Terceirização: no lombo dos outros, é refresco

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Roberta Maia Gresta
Robeta Maia Gresta – é eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala”e colaboradora do site Na Pauta Online.

A acachapante reforma trabalhista implementada no Brasil ganhou um “sim” lamentável do STF. Por 7 a 4, a terceirização da atividade-fim das empresas foi considerada constitucional. Resistiram a pronunciar tal barbaridade apenas os Ministros Marco Aurélio Mello, Edson Fachin, Rosa Weber e Ricardo Lewandovski.

Os argumentos dos Ministros que aprovaram o uso indiscriminado da terceirização não trazem nada de novo sob o sol: foco na eficiência empresarial e no lucro, ao custo da dignidade dos trabalhadores.

A terceirização é mais uma faceta do neoliberalismo vendida como solução para crises econômicas. É a instrumentalização última do trabalhador. Empregado de uma empresa vazia, cujo produto único é a mão de obra alheia, ele trabalha num ambiente ao qual não se vincula.

Como engrenagem a ser mudada de máquina a qualquer momento, quem o vende e quem o compra o alienam: ele é só força de trabalho, não um ser humano com direito a cultivar relações pessoais, identidade profissional e ambições de carreira no espaço onde se consome para produzir.

A cínica promessa é gerar postos de trabalho. Sim, postos cada vez mais necessários quantitativamente, já que qualitativamente depreciados. Postos para que corpos produtivos tenham uma sobrevida precária, suficiente pra manter a sociedade em funcionamento adequado ao conforto da elite.

A elite, vocalizada pelos 7 ministros favoráveis à terceirização, trata do tema com a frieza de quem tem a certeza de que sua própria atividade não será objeto de terceirização. Afinal, coisas assim só passam sem grande escândalo porque a elite segue achando que a reforma trabalhista se destina a massas desqualificadas, composta por seres feitos de substância não-humana. Simplórios, desprovidos das emoções complexas que, ao que parece aos racionais livre-mercadistas, vêm junto com dinheiro e sofisticação.

Parte dessa elite está a salvo do estrago que tem sido feito ao se dilacerar direitos trabalhistas, é verdade. Essa é a parte que só ganha, e sempre ganha, com a desigualdade social.

Mas outra parte dessa elite, maior e bem mais frágil do que se supõe, cedo ou tarde vai notar que a vida profissional de seus filhos ou netos está muito pior do que “deveria” ser.

Irá então se surpreender com a dificuldade dos seus jovens de se colocar no mercado, apesar da escola cara, do intercâmbio e da formação extracurricular. Espantados, mal acreditarão que meninos “tão bem criados” tenham que se submeter a relações trabalhistas precárias.

O desespero talvez bata nesse momento. Não, claro, junto com remorso pelo que foi antes feito aos mais pobres, mas com a perplexidade de quem não sabe o que deu errado.

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