Corrida presidencial: o poder do sistema x o poder do carisma

Foto: AquiAgora.net
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Robert Bonifácio
Dr. Robert Bonifácio – Professor de ciência política na Universidade Federal de Goiás (UFG) e colaborador do site Na Pauta Online.
Esta coluna é publicada quinzenalmente.

Após o recente início da campanha eleitoral, o cenário da corrida presidencial continua o mesmo de meses atrás: Lula lidera, Bolsonaro mantem-se com 20% da preferência eleitoral, Marina é uma distante terceira colocada e os conterrâneos Ciro e Alckmin amargam 5% de intenção de voto, na maioria das pesquisas e cenários.

O que salta aos olhos até agora é o desalinhamento entre o poder do sistema e o poder do carisma e suas consequências. Em específico, destaco que dois candidatos – Lula e Bolsonaro – foram marginalizados pelo sistema mas, a despeito disso, são os mais apoiados pelo público, ao passo que Alckmin tem a situação mais favorável possível, mas carece de carisma e apoio popular.

A situação de Lula é, no mínimo, inusitada: o poder judiciário tem sido implacável em todos os processos e recursos relacionados a sua situação, sempre proferindo sentenças que lhe são desfavoráveis. Deixando de lado uma rica e longa discussão sobre a validade e a qualidade das decisões judiciais, o que se observa é uma improvável situação de manutenção e até mesmo de um pequeno aumento de apoio eleitoral a um cidadão que está encarcerado e, portanto, impedido de fazer campanha e viajar pelo país. Trata-se de um cenário que talvez não tenha paralelo em qualquer outro lugar do mundo e que reforça a posição de Lula como um dos maiores líderes populares da história do Brasil.

A persistência da liderança de Lula nas pesquisas leva alguns analistas a creditarem parte do sucesso ao próprio judiciário. Essa linha de raciocínio baseia-se na suposição de que a implacável atuação dos agentes do judiciário seja enxergada como perseguição e não desejo de se fazer justiça. Por outro lado, há quem assevere que o que predomina é a memória positiva que boa parte dos eleitores possui dos dois mandatos presidenciais de Lula. Numa conjuntura de recorde de desconfiança com instituições e atores políticos, talvez Lula seja uma das poucas figuras políticas que passa ao largo do mar de lama político. Dadas as poucas opções que empolguem ou que seja destinatária de confiança do grande público, o ex-presidente petista permanece protagonista.

Se, em relação a Lula, o sistema restringe a sua liberdade e, por consequência, lhe impõe amarras para fazer campanha política, no caso de Bolsonaro o que se vê é um balde de água fria nas tratativas para construir uma chapa que fosse minimamente competitiva. Mesmo tendo um maciço apoio popular e sendo um fenômeno da internet, o polêmico candidato não conseguiu angariar apoio de partidos médios ou grandes. Como consequência, terá pouca exposição em rádio e TV, o que limita a propagação de seus clichês e propostas de governo para o grande público. Para além disso, ter uma chapa composta por dois partidos nanicos significa não possuir capilaridade de apoio político. Isto é, a situação de Bolsonaro é de pouco apoio de importantes figuras políticas que tentarão os cargos de governador(a), senador(a) e deputado(a) ao redor do Brasil. Essas são limitações importantes num país de dimensão continental e com uma complexa rede de apoios e oposições políticas.

Quem tem a faca e o queijo na mão é Geraldo Alckmin. Refiro-me à estrutura de campanha: conquistou uma ampla coligação, que lhe dará 50% do tempo de TV e rádio e das inserções (spots). Além disso, não lhe faltará recursos para rodar o país e contratar material de campanha de qualidade. O candidato tem espaço na mídia, dinheiro e capilaridade de apoio político. Nesse sentido, o sistema lhe é favorável. Só lhe falta uma coisa, que é a mais importante: intenção de voto. E o problema é que, findada duas semanas de campanha, Alckmin tem feito jus ao apelido de “picolé de chuchu”, ou seja, tem comprovado que carisma não é seu forte. Ademais, até o momento, não mostrou ao que veio nos debates: não apresentou propostas que empolgue o grande público, tampouco atacou com êxito Bolsonaro, candidato que precisa desconstruir para atrair para si parte do voto conservador. Permanecendo com esse desempenho, será difícil chegar ao segundo turno, mesmo tendo todos os recursos favoráveis para isso.

Por fim, destaco que duas candidaturas nos proporcionará a oportunidade de um experimento natural, no sentido de observar a potencialidade da campanha na internet. Bolsonaro goza de expressivo apoio popular, tem forte penetração na internet e míseros segundos de rádio e TV. Seria esse apoio popular inicial e a campanha na internet suficientes para manter e até mesmo aumentar os votos do candidato? Em contraposição, Alckmin apresenta baixa intenção de voto, possui entrada modesta na internet, mas muito espaço na mídia. O início da campanha nesses dois veículos de comunicação seria fator importante para alteração desses dois cenários? Aguardemos cenas dos próximos capítulos…

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