A vida ao lado

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Katia Saules
Katia Saules – Atriz, formada em Artes Cênicas, escritora, critica de artes e colaboradora do site Na Pauta Online.

Em “A Vida ao Lado”, Cristina Fagundes, que escreveu e dirigiu, se utiliza de um bom recurso para falar das relações humanas. Tema comum, mas muito bem aproveitado nesta montagem.

Moradores de um edifício recebem a notícia de que terão que desocupar seus apartamentos para que seja construído um aquário exótico. A ideia do aquário nada mais é que um inteligente pano de fundo para falar de temas tão profundos. Quase um drama, mas com momentos de comédia, e em alguns momentos até de ironia, a peça é conduzida de forma diferente, que nos tira do lugar comum, sem nenhuma obviedade, muito pelo contrário, fazendo-nos pensar em quão chata e sem graça pode ser a vida ao lado, a vida do vizinho, a que quem quer que seja que esteja próximo de nós.

Cristina trás uma dramaturgia interessante, pelo uso das cores dos figurinos, a forma como eles vão se modificando ao logo do tempo de encenação… como também o cenário de Alice Cruz Benvenutti, que é cheio de canos, que nos remete a todo instante aos vazamentos e infiltrações, que ocorrem tanto física quanto moralmente.

Cenas se entrelaçam, atores se dividem em papéis distintos em cada momento, mas tudo se encaixa, e vai tomando forma enquanto as relações se deformam. Tudo muito bem cuidado, nota-se uma direção precisa, um elenco afiado e afinado onde todos tocam a mesma música, seus personagens são frios e frágeis, e toda a história carrega seus conflitos,que vão sendo desfeitos ou resolvidos a medida que novas situações aparecem.

Uma luz muito bem elaborada de Aurélio De Simoni, que deixa a mostra os canos a todo instante, para que não nos esqueçamos que o pano de fundo é também o protagonista desta história, junto de um elenco bastante coeso e integrado, onde em alguns momentos destacam-se Bia Guedes e Marcello Gonçalves, por suas ricas composições.

A vida ao lado pode ser a sua, pode ser a minha, mas com certeza é a de todos nós que não conseguimos dar conta de nossas próprias infiltrações, preocupados justamente com quem vive ao lado.

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