NO PAÍS DO FUTEBOL, POR QUE A DERROTA NÃO É ACEITÁVEL?

Sábado, pós eliminação da Copa. O Brasil amanhece de ressaca.

Normal curtir o luto. Afinal, como já disseram: dentre as coisas desimportantes da vida, o futebol é a mais importante delas.

Mas parece que não há mais entre nós o fôlego de elaborar as perdas e a introspecção para aceitar a tristeza. Há, solta, sem controle, a potência do ódio.

Da ressaca ao ódio. Logo pela manhã, foi de assustar ver tanta coisa medonha, agressiva, rancorosa dirigida especialmente ao Fernandinho, autor do gol contra que colocou a Bélgica à frente, mas também dita contra qualquer “culpado” da ocasião: o Tite, o Neymar, os críticos de Neymar, quem fez meme, quem paga salário alto aos jogadores na Europa, quem não acreditou no talento dos jogadores, os jogadores que fizeram tudo errado.

O que vem à tona é uma combinação entre auto-estima baixíssima e arrogância nas alturas. Do sentimento de superioridade de achar que não basta ser o único penta, temos que ser hexa e esse resultado é tão óbvio quanto 5 mais 1 são 6, vai-se ao arraso completo, às acusações disparadas em todas as direções pra provar que esse país nunca vai dar certo mesmo.

A seleção brasileira jogou as quartas bem e comprometida. Perdeu porque o outro time foi superior em campo. A Bélgica contou também com ajuda do apito, é verdade. Mas até isso faz parte – infelizmente, o VAR não resolveu o problema do solipsismo no futebol. Iria passar apenas um time e o fato de não ser o nosso devia tanto ser uma hipótese plausível quanto um resultado digno.

Já faz tempo que, coletivamente, temos demonstrado uma dificuldade enorme em lidar com frustrações. O que tem levado à adoção das medidas mais extremas, desastrosas e, porque incapazes de valer mais que uma catarse, irracionais.

Da política para o futebol e, certamente, deste de volta à política… Há um lugar ali, onde é possível identificar problemas e lidar com eles de forma mais realista e eficiente. Onde podemos avaliar a proporção de nossas reações aos fatos e escolher agir de forma construtiva, ainda que crítica. Onde não se acredite que a aniquilação seja a única resposta possível ao que não funciona como gostaríamos.

Mas será que em algum momento sairemos fora dessa gangorra egóica feita de imaturidade e inconsequência?