Efeito Petrobrás – dos caminhoneiros aos centros financeiros no exterior

FR12 SÃO PAULO - SP - 21/05/2018 - ECONOMIA - PROTESTO CAMINHONEIROS - Caminhoneiros protestam na Marginal Pinheiros e Av. Escola Politécnica, contra o aumento do diesel nesta segunda-feira (21), dia em que foi anunciada mais uma alta do valor nas refinarias, de 0,97% a partir de terça (22). Na semana passada, foram cinco reajustes diários seguidos. A escalada nos preços acontece em meio à disparada nos preços internacionais do petróleo. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO
Paula Tooths
Paula Tooths – Jornalista, produtora de TV e escritora, autora de quatro títulos publicados no Reino Unido e repórter do Na Pauta Online.

Petrobrás é a quinta maior petrolífera com capital aberto e
a 16ª maior produtora do mundo

O Brasil foi destaque em todos os jornais aqui na Europa na última semana, principalmente em Londres, que é a casa do segundo maior centro financeiro do mundo. Na última quinta-feira, a queda de 13% nas ações da Petrobrás agitou o mercado. Mesmo com declínio considerável e bom momento de compra, grandes instituições como a GPMORGAN entre outras, recomendavam aos investidores de peso a não apostar no Petróleo Brasileiro S.A. em meio a temores de uma nova era de intervenção do governo na política de preços da empresa.

A queda da Petrobrás foi causada por uma redução provisória com segundas intenções no preço do diesel. Tentando abaixar a poeira, o governo concedeu desconto temporário de 10% para as refinarias, o que na verdade, era um movimento para garantir a entrega da safra de soja, em sua maioria, já vendida para o exterior. A soja, maior commodity Agrícola do Brasil, teve variação de + 0.6% durante a semana com promessas de subir ainda mais.

Os caminhoneiros, embora aleguem que a greve em massa seja para uma melhoria geral do país, na verdade lutam por interesses próprios como a redução do preço do diesel, ajuste nos preços dos pedágios, isenção de IPVA, melhorias na condição das estradas, aumento do salário base e revisão geral nos custos da categoria. Vinte e cinco estados brasileiros aderiram à greve e como toda greve, conseqüências são inevitáveis.

Entenda a composição de preços do combustível:

GASOLINA:

9%       Distribuição e revenda

12%     Custo etanol anidro

29%     ICMS

16%     CIDE e PIS; PASEP e COFINS

34%     Realização Petrobrás

DIESEL:

9%       Distribuição e revenda

7%       Custo Biodiesel

15%     ICMS

13%     CIDE e PIS; PASEP e COFINS

56%     Realização Petrobrás

*** Os tributos federais são cobrados com um valor fixo por litro – o de PIS/COFINS, por exemplo, é de R$ 0,7925 por litro de gasolina; a Cide, de R$ 0,10 por litro.O ICMS, por sua vez, é um percentual sobre o preço de venda – ou seja, cada vez que ele sobe, os Estados recolhem mais impostos.

A mesma gasolina que era repassada para as distribuidoras em 12/04 por R$ 1,68 por litro, foi repassada na ultima sexta por R$ 2,01 e o diesel de R$ 1,95, no final desta semana já era repassado por R$ 2,11, superando o valor base da gasolina. O consumidor final paga cerca de R$ 4,3 por um litro. Ontem, para comprar um litro de gasolina na zona sul de São Paulo, como relataram alguns de nossos leitores, era preciso desembolsar R$ 10,00 e já tinha oferta no mercado não oficial por RS 30,00 o litro.

Mais barato seria fazer um bate-volta para Caracas e voltar com reserva. Na Venezuela, o litro de gasolina custa R$ 0,04, no Irã R$ 1,02, no Sudão e no Kuwait R$ 1,24 e R$ 1,3 na Algeria. Na Rússia, bem como na Arábia Saudita, os maiores produtores do mundo, um litro de gasolina custa cerca de R$ 2,50 e nos Estados Unidos, você pode até comprar em lojas de rua por cerca de R$ 1,50/ litro.

IMPACTO NO BRASIL

Temer foi avisado com antecedência de que a greve aconteceria, caso os pedidos da União e do Sindicato dos caminhoneiros ao redor do país não fossem atendidos, mas certamente o presidente pensou que fossem apenas rumores.

As conseqüências desta greve organizada poderão ser sem dúvida, as de maior impacto na história verde-amarela.

O bloqueio das rodovias foi o primeiro impacto. Após quase uma semana de greve e uma parte dos caminhoneiros querendo ceder às promessas governamentais, a maioria não cedeu e as rodovias seguem bloqueadas.

O preço do combustível foi o maior preço que o brasileiro já pagou até então em conseqüência a greve. Muitos donos de postos também estão aproveitando para super faturar. De acordo com algumas fontes, o pacotão diesel poderá reduzir o preço na bomba em ate R$ 0,74 por litro a venda, mas nada ainda foi confirmado.

Falta de água e luz já está prevista. As concessionárias já estão em estado de alerta e pedindo colaboração da população com a redução no uso diário.

Os hospitais sem dúvidas foram um dos maiores afetados. E não só os hospitais, mas clinicas e laboratórios também. Hospitais já estão sem estoque de oxigênio, medicamentos e suprimento para tratamentos essenciais como diálise por exemplo. É válido lembrar que a rede de saúde conta com coleta de lixo especial, que também está comprometida.

Mas não é só a rede hospitalar que ficará sem coleta de lixo. Todo o Sistema de limpeza urbana também está comprometido. O estado de São Paulo já está gritando por socorro.

Ainda no tópico saúde, a população poderá contar com o desabastecimento de medicamentos nas prateleiras das farmácias. Há uma grande preocupação com os itens que necessitam de refrigeração e estão parados em trânsito.

Algumas empresas de transporte público e poucos aeroportos ainda têm estoque de combustível porque a última remessa foi entregue nesta sexta-feira com escolta em grande escala pela policia federal.

Desde o inicio do mês, mesmo estando do outro lado do oceano, tenho recebido centenas de mensagens, recomendando que quem estivesse no Brasil deveria fazer estoque de alimentos porque iria faltar muito em breve. Confesso que pensei que era brincadeira e não dei atenção. Mas esse será um dos grandes impactos.

Alimentos estão longe de chegar às distribuidoras, e consequentemente não vão chegar tão cedo nos supermercados e muito menos nos mercadinhos locais. Muita coisa já está em falta nos longos corredores e o que os consumidores encontram por ali, já tem preço mais elevado. Aqui também cabe a mesma preocupação dos medicamentos refrigerados. Muitos alimentos refrigerados e congelados estão parados nas estradas e com certeza sem maiores critérios, serão repassados ao consumidor em algum momento. Nas grandes cidades já não existem alimentos frescos. Frutas, legumes e verduras tornam-se artigos de luxo neste momento.

A agropecuária está com o balanço negativo. Centenas de litros de leite acabaram no lixo por falta de transporte.

Entretenimento também entrou na lista. O Brasileirão terá todos os jogos adiantados devido à restrição de abastecimento nas aeronaves e transporte rodoviário, impactando toda a logística dos clubes e equipes.

Montadoras já pararam suas produções, mas os números do impacto ainda não foram divulgados.

Para diminuir os impactos da greve, o estado de Minas Gerais decretou ponto facultativo na última sexta-feira, dia 25. Outros estados ameaçam seguir a medida caso a greve continue.

IMPACTO NO EXTERIOR

O abastecimento das aeronaves, já aqui citada no impacto doméstico, foi também um dos primeiros impactos da greve com as relações exteriores. Não apenas passageiros perderão seus vôos, mas muita mercadoria chegará atrasada ou não chegará a seu destino.

A soja que movimenta boa parte de exportações acabou de passar pela colheita da safra anual e já está em atraso com as exportações. Assim, como a soja, muitos outros produtos do cinturão do agronegócio estão sofrendo o impacto da greve. O Porto do Paranaguá no Paraná já havia fechado na última semana, alguns de seus berços do corredor de exportação e outros portos prometem seguir o modelo.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos emitiu uma nota de alerta de segurança com varias recomendações.

O pregão da B3 tem trabalhado bastante nos últimos dias. A redução temporária de 10% no diesel causou reação imediata e foi muito mal recebida pelos investidores da Petrobrás. A baixa na moeda brasileira também foi reflexo da queda nas ações da Petrobrás.

Análise

A greve dos caminhoneiros é um direito, mas já virou chantagem e tem afetado muita gente, muitas que enquanto você está lendo este artigo, estarão brigando para sobreviver, seja porque não tem ônibus para chegar ao trabalho e sem aquela diária não terá com o que alimentar os filhos, ou até mesmo aquele paciente na UTI aguardando por oxigênio que não chegou.

Em 1979, a Inglaterra teve na cidade de Liverpool a maior greve de toda a história. Os coveiros guardaram suas ferramentas e deixaram milhares de cadáveres por dias, enfileirados em um armazém.  A famosa Dama de Ferro, Margareth Thatcher, então primeira ministra e líder do partido conservador, entrou em ação e cortou o poder dos sindicatos, enfraquecendo todos os esforços do partido dos trabalhadores, sua oposição. Até hoje, 39 anos depois, sindicatos no Reino Unido não têm poder algum e diferente do Brasil, os profissionais não se filiam e lutam por si só, quando necessário. O Reino Unido conta com menos de dez sindicatos nacionais reconhecidos, um deles é o sindicato dos jornalistas, que é profissão regulamentada. Ainda assim, o poder nacional sobrepõe o poder de qualquer sindicato trabalhista.

Neste momento, a evolução do caos causada pela greve dos caminhoneiros, tem progressão geométrica. Não moro no Brasil há quase duas décadas, mas diariamente escuto e leio relatos de meus amigos e familiares, descontentes com a situação.

A greve foi organizada para chamar a atenção no topo, mas de forma grandiosa, afetou sem medidas a população de todo o país.

Mas o que dita à lei?

Deixei a Universidade de Direito há mais de vinte anos, não sou especialista, mas como boa rebelde, conheço bem esta parte.

A Constituição brasileira prevê o direito de greve. A lei No 7.783/89 também prevê que a lei definirá os serviços e atividades essenciais como o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. Porem, a própria lei prevê que os abusos cometidos serão punidos.

A lei ainda lista uma infinidade de proibições, dentre elas, os grevistas não podem de forma alguma impedir que outros trabalhadores cheguem ao trabalho; os grevistas também ficam obrigados a garantir durante a greve o suprimento de necessidades essenciais da comunidade, não podendo colocar em perigo saúde, abastecimento ou segurança.

Com tanta tecnologia e fácil acesso as redes social, a greve tomou força inimaginável a cada dia. Considerando que apenas 37% dos caminhoneiros são autônomos, parte das entidades empresariais aderiu à greve, tornando o movimento muito maior do que esperado. É bom ressaltar que o setor de transporte de carga é responsável por mais de 60% de tudo o que o Brasil produz, tanto para distribuição interna, como intermediário para exportação.

Tanta carga parada. Remédios refrigerados que neste ponto já não fazem efeito. Alimentos refrigerados que possivelmente já passaram de suas datas de validade. E a carne congelada, pronta para ser exportada? Fica aqui a pergunta – Quem vai pagar por esse prejuízo? E pior ainda – haverá algum critério ou monitoramento para que esses produtos não acabem nas prateleiras, re-etiquetados ou em sua mesa?

Na pressão, é bem possível que o governo ceda benefícios que nem ainda existam, mas uma pergunta que não pode calar – Quem é que vai pagar essa conta toda? Sem dúvida, você contribuinte.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here